O placar oficial diz 15 a 9. O placar que decide o futuro do CLARITY Act diz 11 a 13.
Na quinta-feira, 14 de maio de 2026, o Senate Banking Committee aprovou em markup a versão senatorial do Digital Asset Market Clarity Act — o marco regulatório que pretende redesenhar a relação entre cripto, securities e commodities nos Estados Unidos. Todos os 13 republicanos votaram a favor, acompanhados pelos democratas Ruben Gallego (Arizona) e Angela Alsobrooks (Maryland). Os demais democratas, incluindo a ranking member Elizabeth Warren, votaram não.
O resultado era esperado. Três dias antes, quando ABA, BPI e ICBA quebraram o acordo Tillis-Alsobrooks tentando reabrir a brecha do yield, ficou claro que o lobby bancário entrava na markup já derrotado no front da reserva — o que restava era operar nos bastidores das emendas. E foi ali que a votação real aconteceu.
A emenda Van Hollen sobre ethics caiu por 11 votos a 13. Essa é a verdadeira manchete do dia 14 de maio. O dispositivo proibiria oficiais sênior do Executivo de manter interesses ativos em ativos digitais durante o mandato — leia-se, atingiria diretamente o ecossistema cripto da família Trump, incluindo as posições em $TRUMP, $MELANIA e o conglomerado World Liberty Financial. Foi rejeitado por margem mais estreita do que a aprovação da própria lei.
Por que isso importa? Porque a markup só era a primeira sala. O plenário do Senado — que precisa de 60 votos para superar filibuster — é onde sete democratas ainda não comprometidos vão decidir se o presidente assina o CLARITY no dia 4 de julho, como deseja a Casa Branca. E o gatilho deles tem nome: ethics.
Capítulo 1 — Quem cruzou o corredor e a que preço
Gallego e Alsobrooks não votaram "sim" sem reservas. Ambos haviam condicionado publicamente o apoio à inclusão de guardrails de ética que tratassem do conflito de interesses presidencial — condição que não foi cumprida até a hora da votação. Votaram a favor mesmo assim. O motivo é estratégico: deixar o bill avançar permite negociar no plenário, não na comissão.
Gallego foi explícito sobre o que vem a seguir. Em declaração logo após o voto, deixou no microfone uma ameaça pública dirigida ao próprio campo:
"Se isso não estiver resolvido no momento do voto no plenário, como já fiz no passado, não tenho medo de votar não."
A frase é a chave de leitura da semana. O democrata do Arizona — um dos cinco senadores mais alinhados com a agenda cripto pelos cálculos do Cedar Innovation Foundation — está dizendo que o "sim" da comissão era condicional, e o seu voto no plenário depende de o que acontece com o ethics nas próximas seis semanas.
Alsobrooks adotou postura semelhante. A senadora de Maryland negociou diretamente com Thom Tillis (R-NC) a versão final do acordo de yield que o acordo Tillis-Alsobrooks consolidou em abril — e que o lobby bancário tentou reabrir na semana da markup, sem sucesso. Esse acordo está estabilizado. O ethics, não.
O cálculo de Tim Scott
O presidente da comissão, Tim Scott (R-SC), conduziu a markup com o objetivo único de tirar o texto da sala. Para fazer isso, bloqueou votação em emendas que considerou problemáticas — sob a justificativa de "erros técnicos de redação". Caíram nesse filtro pelo menos duas emendas relevantes: uma que reabriria a discussão de yield disfarçado em rewards programs de stablecoin (alvo do lobby bancário) e outra que ampliava restrições sobre infraestrutura DeFi. Ambas teriam refazido a costura que o comment letter da BlackRock à OCC tentou consolidar em paralelo, no front da reserva tokenizada.
A leitura é clara: o que sobreviveu à markup é exatamente o pacote que beneficia a trilogia BlackRock-Circle-Tether. As brechas de yield reformatado em payment-rail rewards, a delimitação favorável entre security e commodity, o tratamento "narrow" para DeFi não-custodial — tudo isso passou.
Capítulo 2 — A cartada Van Hollen e o 11-13
Chris Van Hollen (D-MD) entrou na markup com a emenda que seria a trincheira mais alta do dia. O texto, apresentado em duas páginas, vedava a oficiais do Poder Executivo no nível de gabinete e acima — incluindo o presidente, o vice-presidente, secretários e o procurador-geral — manter interesses econômicos ativos em tokens individuais emitidos por entidades sob jurisdição da SEC ou da CFTC, durante o mandato.
O alvo era óbvio. A família Trump, segundo declarações públicas e relatórios da Office of Government Ethics, mantém posições no token presidencial $TRUMP, no token $MELANIA, e participação no World Liberty Financial — protocolo DeFi que lançou em 2024 o token WLFI e em 2025 a stablecoin USD1. A emenda Van Hollen forçaria desinvestimento, ou recusaria proteção regulatória ao ecossistema enquanto ela permanecesse ativa.
Caiu 11 a 13. Dois democratas se ausentaram do voto, e Gallego e Alsobrooks — os mesmos que cruzaram para apoiar o bill — votaram contra a emenda. A justificativa, em ambos os casos, foi processual: a emenda traria conflito de jurisdição com o pacote ético em discussão no Senate Government Affairs Committee, e portanto deveria ser tratada em standalone bill, não dentro do CLARITY.
É a mesma manobra que matou a emenda Warren sobre conflict-of-interest disclosure em maio passado durante a markup do GENIUS Act. A diferença é que agora o argumento não cola tão facilmente — a janela do standalone bill de ethics em ano de midterm é praticamente nula.
Por que 11-13 é mais perigoso para o CLARITY do que 15-9
Margem de dois votos numa emenda significa que o ethics tem 11 votos garantidos contra o bill no plenário se entrar como filibuster. Cada senador democrata do Banking Committee que rejeitou Van Hollen pode mudar de posição no floor — porque o cálculo lá não é de comissão, é de coalizão para superar 60. E sete dos democratas necessários para o 60 dependem exatamente desse tema.
Capítulo 3 — Warren enquadra o processo
Elizabeth Warren, ranking member do comitê, votou contra o bill com a justificativa mais estrutural do dia. No microfone:
"Estou profundamente preocupada que law enforcement officials [...] [e] community banks vão ouvir isso e se perguntar por que o ponto de vista deles simplesmente não pôde ser escutado."
A frase costura dois eixos que Warren tem trabalhado desde o primeiro draft: aplicação da lei (FinCEN, OFAC, FBI ciber) tem queixas técnicas sobre o tratamento do CLARITY a regras de KYC em self-custody wallets — sobreposição com o regime FinCEN-OFAC que entrou em vigor com o GENIUS Act — e community banks, representados pela ICBA, têm queixas comerciais sobre a tese de que stablecoin com rewards program não compete com depósito.
Esse segundo eixo é o mesmo que o trio ABA-BPI-ICBA tentou — e fracassou — reabrir três dias antes. O fato de a queixa permanecer mesmo após a derrota do lobby bancário sinaliza que o tema vai voltar no plenário pela porta de uma emenda Brown ou Reed, não mais por Tillis-Alsobrooks.
Capítulo 4 — Os sete democratas que decidem o 4 de julho
Para o CLARITY chegar à mesa do presidente em 4 de julho, três coisas precisam acontecer em sequência: (a) Banking e Agriculture conciliam suas versões em texto unificado; (b) o líder da maioria agenda o floor; (c) o bill obtém 60 votos no plenário, superando filibuster.
A primeira é tecnicamente trabalho de staff e deve ser resolvida em duas a três semanas. A segunda depende do calendário do Senado e do espaço entre o orçamento NDAA e o recesso. A terceira é onde tudo se decide.
Os 53 republicanos votam sim. Gallego e Alsobrooks já estão no sim — sob a condição que Gallego deixou no microfone. Faltam cinco democratas. Os nomes que circulam nos cálculos do Banking Committee e do leadership democrata:
- Kirsten Gillibrand (NY) — autora do Lummis-Gillibrand Responsible Financial Innovation Act, marco favorável à indústria cripto desde 2022. Voto provável.
- Mark Warner (VA) — intelligence-hawk, condicionará apoio a salvaguardas contra Lazarus Group e DPRK. Negocia.
- Cory Booker (NJ) — historicamente cético, mas pressionado pela economia digital de NJ. Indeciso.
- Chris Coons (DE) — voto técnico, vai onde a leadership orientar. Aliado de Biden, agora aliado de Schumer.
- Raphael Warnock (GA) — pressionado pela base democrata da Geórgia, recém-eleito. Resistente.
Cinco nomes, sete votos a conquistar contando Gallego e Alsobrooks como condicionais. A trincheira do ethics é o ponto de pressão de todos eles. Gillibrand pode aceitar uma versão diluída; Warner exige cybersecurity; Booker e Warnock vão precisar de cobertura de leadership; Coons vai onde Schumer estiver.
Capítulo 5 — A House e a versão de julho de 2025
Mesmo se o CLARITY passar no Senado em junho com 60 votos, ainda falta a etapa que poucos estão olhando: a reconciliação com a versão da Câmara.
A Câmara dos Representantes aprovou em julho de 2025 a HR 3633, que é uma versão diferente do CLARITY em três pontos estruturais:
- Stablecoin yield — a HR 3633 deixava margem para rewards-programs mais agressivos; a versão Senate aplica a costura Tillis-Alsobrooks que fechou essa porta.
- Tratamento DeFi — a HR 3633 tem definição mais larga de "non-custodial software"; a versão Senate é mais restritiva.
- Ethics — ausente na HR 3633, em aberto na versão Senate.
Cenários: (a) a Câmara aceita o texto do Senado integralmente, o que requer disciplina republicana e exige que Mike Johnson coordene a base; (b) entram em conferência, e o texto final é votado novamente em ambas as casas. O primeiro é factível em duas semanas; o segundo consome de quatro a seis. A meta de 4 de julho assume o primeiro caminho.
Capítulo 6 — O que sobrevive da trilogia 196-197-198
A markup de 14 de maio confirmou retroativamente o que o trio de matérias ON3X publicado entre 9 e 11 de maio já sinalizava. Vale revisitar.
O comment letter da BlackRock à OCC, com 17 páginas e sete demandas, atacava o teto de 20% sobre reserva tokenizada no NPRM do GENIUS Act — uma brecha que, se sobrevive, salva os US$ 2,6 bilhões do BUIDL. Essa brecha continua aberta após a markup do CLARITY, porque o texto senatorial não toca em parâmetros de reserva (que vivem no GENIUS, não no CLARITY).
O trio ABA-BPI-ICBA tentou reabrir a brecha do yield em 9 de maio, perdeu por exclusão das emendas correspondentes na markup. Permanece a costura Tillis-Alsobrooks: stablecoin é payment rail, não conta-corrente, e rewards programs têm regime separado de não-rendimento.
O presale do Arc, com US$ 222 milhões a US$ 3 bilhões de FDV e a16z liderando ao lado de BlackRock-Apollo-ICE-Standard Chartered, posicionava a Circle para uma janela de aprovação regulatória que efetivamente abriu. Verticalização do dólar tokenizado encontra agora não apenas o GENIUS Act, mas também o CLARITY senatorial — e a brecha continua passando por dentro.
Capítulo 7 — O contraponto Lagarde
Enquanto Washington avança 15-9, a Europa reage na direção oposta. A declaração de Christine Lagarde em Madri, no dia 8 de maio, endossou explicitamente o cerco do Banco Central do Brasil às stablecoins-dólar via Resolução 561. O eixo BCE-BCB se forma como reação geopolítica: o dólar on-chain é arma assimétrica, e a UE não vai assistir.
Se o CLARITY for assinado em 4 de julho, o gap regulatório entre EUA e UE vira definitivo. O universo de US$ 321 bilhões em stablecoins ganha jurisdição estável nos EUA e proibição efetiva de uso transfronteiriço no Brasil e regra MiCA pesada na Europa. A assimetria não é bug — é arquitetura.
A perspectiva ON3X
Três leituras para a markup 15-9 e o que ela significa para os próximos 51 dias até 4 de julho.
1. O 11-13 da emenda Van Hollen é a próxima trincheira, não o 15-9 do bill. A aprovação do CLARITY na comissão era esperada e foi entregue. O voto que decide o ritmo do plenário é o do ethics — e nele, dois democratas que votaram pelo bill votaram contra a emenda. Isso significa que o terreno de barganha do floor está exatamente delimitado: ou os republicanos cedem em um pacote de ethics simbolico para destravar Gillibrand/Booker/Warnock, ou o bill estaciona em filibuster e mata a meta de 4 de julho.
2. O lobby bancário perdeu duas vezes, mas a guerra do yield não acabou. O acordo Tillis-Alsobrooks sobreviveu à quebra de 9 de maio e às tentativas de reabertura via emenda em 14 de maio. A definição de stablecoin como payment rail está consolidada. Mas as emendas Brown e Reed sobre community-bank protection e a sobreposição com o regime FinCEN-OFAC virão no plenário. O lobby bancário não vai morrer — vai mudar de tática.
3. A trilogia BlackRock-Circle-Tether sai vencedora. Reserva tokenizada continua com brecha de NPRM aberta no GENIUS, yield está cercado da forma que o trio queria, classificação securities/commodities sai favorável para institutional issuers, DeFi não-custodial tem tratamento estreito. O CLARITY senatorial é, na prática, o pacote que verticaliza o dólar on-chain pela porta do tesouro tokenizado — exatamente o caminho que BSTBL e BRSRV anunciaram em 8 de maio. A markup de 14 de maio não inaugurou nada — selou.
O 4 de julho é meta política. O ethics é a única coisa entre essa meta e os 60 votos necessários. E o placar 11-13 — que ninguém viu — diz exatamente onde a próxima briga vai acontecer.
