SWIFT Entra na Era Blockchain: Uma Nova Fase para Pagamentos Internacionais
A SWIFT, a espinha dorsal de mensagens que conecta mais de 11.000 instituições financeiras em mais de 200 países, confirmou que seu livro-razão compartilhado baseado em blockchain está avançando para sua primeira versão MVP. Após concluir uma etapa de design com um grupo global de bancos, a rede agora se prepara para transações reais ainda este ano.
O anúncio, feito em 30 de março de 2026 através do perfil oficial da SWIFT no X (antigo Twitter), gerou repercussão imediata no mercado, acumulando mais de 1.100 curtidas e 176 respostas. Para o mercado de pagamentos internacionais, que movimenta US$ 183 trilhões por ano, as implicações são enormes.
O Que a Blockchain Ledger da SWIFT Realmente Faz
O livro-razão compartilhado não é uma blockchain pública, nem utiliza uma criptomoeda nativa. Trata-se de uma camada de infraestrutura permissionada, construída sobre a Linea, uma rede layer 2 do Ethereum desenvolvida pela ConsenSys. Isso significa que o sistema herda a segurança e a interoperabilidade do ecossistema Ethereum, mas opera em uma camada otimizada para velocidade e custos reduzidos, com acesso restrito a instituições autorizadas.
Na prática, o livro registra, sequencia e valida transações entre instituições financeiras por meio de smart contracts. Essa automação permite a movimentação de depósitos tokenizados, stablecoins regulamentadas e moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs) em tempo real e durante todo o dia, incluindo finais de semana e feriados.
O Problema Que Esse Sistema Resolve
Pagamentos internacionais tradicionais dependem de redes bancárias correspondentes que funcionam no horário comercial, envolvem diversos intermediários e geram grande volume de conciliações. Uma transferência entre dois países pode passar por três, quatro ou mais bancos antes de chegar ao destinatário, cada um cobrando taxas e adicionando tempo ao processo.
O livro-razão da SWIFT simplifica esse processo ao unir mensagens e liquidação em uma única camada. Em vez de separar a ordem de pagamento da liquidação efetiva do dinheiro (como acontece hoje), tudo passa a ocorrer de forma integrada e simultânea. O resultado para os bancos é maior agilidade na execução de pagamentos, visibilidade aprimorada da liquidez e redução expressiva no esforço de conciliação.
Para quem envia ou recebe dinheiro internacionalmente, isso se traduz em transferências mais rápidas, com taxas transparentes e rastreamento completo de ponta a ponta.
Mais de 30 Bancos Globais Moldaram o Projeto
A fase de design reuniu mais de 30 instituições financeiras globais de peso. Entre os participantes estão nomes como JPMorgan, HSBC, BNP Paribas, Deutsche Bank e Bank of America. As contribuições desse grupo definiram a funcionalidade, o modelo de governança e o cronograma de desenvolvimento futuro do livro-razão.
O envolvimento de bancos desse calibre não é apenas simbólico. Essas instituições ajudaram a definir como o sistema operará na prática, quais regras de compliance serão aplicadas e como a governança será distribuída entre os participantes. Essa co-criação garante que o ledger seja construído para atender às exigências reais do setor bancário, não apenas como um experimento tecnológico.
Além dos 30 bancos no design, outros participantes aderiram ao framework mais amplo, totalizando mais de 50 instituições comprometidas com o novo sistema. Os corredores de pagamento cobrem regiões estratégicas como Austrália, Bangladesh, Canadá, China, Alemanha, Índia, Paquistão, Espanha, Tailândia, Reino Unido e Estados Unidos. No Brasil, Bradesco e Itaú Unibanco estão entre as instituições envolvidas.
Tokenização e o Futuro dos Ativos Digitais
O projeto vai além de simples pagamentos. A SWIFT também conduziu testes bem-sucedidos de interoperabilidade com ativos digitais tokenizados. Em colaboração com o BNP Paribas Securities Services, a Intesa Sanpaolo e a Société Générale FORGE, a SWIFT completou um trial que permitiu a troca e liquidação de títulos tokenizados, com suporte a pagamentos tanto em moeda fiduciária quanto em moedas digitais.
Isso abre caminho para que o ledger funcione como ponte entre o sistema financeiro tradicional e o universo de ativos digitais, incluindo stablecoins, depósitos tokenizados e CBDCs. A definição sobre quais tipos de tokens serão suportados ficará a cargo dos bancos comerciais e bancos centrais participantes.
O Chainlink também está envolvido no projeto, fornecendo infraestrutura de interoperabilidade que conecta blockchains privadas e públicas, mantendo os padrões de mensagens ISO 20022 já amplamente adotados pelo setor bancário.
Alternativa Paralela, Não Substituta
Um ponto crucial que diferencia essa iniciativa de outras tentativas de modernização: a SWIFT posiciona o livro-razão não como substituto de sua atual infraestrutura de mensagens, mas como alternativa paralela. Isso significa que os bancos poderão acessar liquidação por blockchain sem precisar modificar seus fluxos operacionais existentes ou alterar exigências internas de conformidade.
Essa abordagem pragmática é o que torna o projeto viável em larga escala. Em vez de pedir que milhares de bancos migrem de uma só vez para um sistema completamente novo, a SWIFT oferece uma porta de entrada gradual. Os bancos que quiserem utilizar o novo ledger podem fazê-lo em paralelo, mantendo seus processos tradicionais funcionando normalmente durante a transição.
O Impacto no Mercado Crypto: XRP e XLM Sob Pressão
A entrada da SWIFT no espaço blockchain levanta uma questão inevitável: qual o futuro de criptomoedas como XRP (Ripple) e XLM (Stellar), que foram construídas especificamente para resolver o problema de pagamentos transfronteiriços?
Se a SWIFT conseguir entregar pagamentos instantâneos, transparentes e de baixo custo através de sua rede já estabelecida com milhares de bancos, a proposta de valor dessas criptomoedas pode ser diretamente desafiada. A vantagem competitiva da SWIFT é clara: ela não precisa convencer bancos a adotar uma nova rede, porque os bancos já fazem parte dela.
Por outro lado, analistas apontam que algumas características da nova rede da SWIFT se assemelham tecnicamente ao que o XRP Ledger já oferece, gerando especulações sobre possíveis integrações futuras entre as tecnologias. O mercado acompanha de perto para entender se haverá competição direta ou espaço para coexistência.
O Que Vem a Seguir
A expectativa é que a versão MVP opere com transações reais ainda em 2026. Mais de 25 bancos já se comprometeram a processar pagamentos através do novo modelo até junho, transformando o projeto de conceito em realidade operacional.
Para o setor financeiro, este é um ponto de inflexão. Pela primeira vez, a maior rede de comunicação bancária do mundo está adotando blockchain não como experimento, mas como infraestrutura de produção. Isso legitima a tecnologia de uma forma que nenhum projeto crypto isolado conseguiria, e sinaliza que a convergência entre finanças tradicionais e tecnologia blockchain deixou de ser uma questão de "se" para se tornar uma questão de "quando".
Com um mercado de US$ 183 trilhões em jogo, resta acompanhar se a execução estará à altura da ambição.
