Atrás de um mercado de fachada no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio, cerca de trinta computadores enfileirados em prateleiras zumbiam dia e noite num cômodo de um terreno aparentemente abandonado. Não eram de uma startup. Eram do Comando Vermelho — e mineravam Bitcoin com energia furtada da rede pública. A Polícia Civil estourou a estrutura em 22 de maio, durante a Operação Contenção, e revelou ao vivo o que a Chainalysis vinha avisando no plano abstrato: o crime organizado brasileiro deixou de apenas usar cripto. Agora ele fabrica.
O detalhe que transforma a apreensão em pauta não é a fazenda em si — é o modelo. Uma facção que controla território de tráfico montou uma linha de produção que converte infraestrutura pública roubada (energia) diretamente em um ativo digital sem fronteira e difícil de confiscar. É o gato de luz virando blockchain. E é um vetor que escapa por completo da muralha regulatória que o Brasil ergueu em 2026 contra stablecoins e pagamentos.
A fazenda atrás do mercado
A operação foi conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) em conjunto com a 26ª DP (Todos os Santos), mirando o domínio territorial do Comando Vermelho no Complexo do Lins. Os números da estrutura clandestina:
- ~30 computadores dedicados à mineração, enfileirados em prateleiras dentro de um cômodo usando um mercado como fachada;
- ~45 kW de consumo (cerca de 32.400 kWh por mês), drenados por ligações elétricas improvisadas e irregulares — um gato de luz industrial;
- ~US$ 6.400 por mês em energia furtada da rede pública (a US$ 0,20/kWh), ou seja, custo operacional zero para a facção;
- 10 suspeitos presos, entre eles Emanuel dos Santos Carvalho, o "Mata Rindo", apontado como um dos articuladores da facção no território.
A investigação corre por lavagem de dinheiro. E não foi um caso isolado de "alguém minerando no morro": a estrutura estava integrada à máquina financeira de uma das duas maiores organizações criminosas do país.
O modelo novo: energia roubada vira ativo limpo na origem
Para entender por que isso importa, é preciso separar a mineração da lavagem tradicional. Quando uma facção lava dinheiro, ela parte de um valor sujo e tenta "limpar" a origem. Aqui o jogo é outro: a facção parte de um insumo roubado — eletricidade da rede pública — e o transforma, via mineração, em Bitcoin recém-emitido, que nasce sem histórico de transação atrelado a um crime de origem. O ativo já chega "limpo" na carteira, sem precisar passar por um misturador ou por uma ponte.
A matemática é brutal de eficiente. Com a energia — o maior custo de qualquer mineração — saindo de graça às custas da concessionária, a margem é praticamente total. A facção monetiza o controle territorial (que permite o gato de luz sem fiscalização) e o converte num rendimento em cripto, fora do sistema bancário, fora do Pix, fora do alcance imediato de um bloqueio judicial. É a verticalização do crime: o território vira usina, a usina vira ativo digital.
Não é a primeira vez que vemos a Polícia atrás do dinheiro on-chain das facções — a própria Polícia Federal já bloqueou R$ 934 milhões em uma operação de lavagem com criptomoedas. A novidade do Lins é a etapa anterior: não é só mover o dinheiro, é produzi-lo.
Não é só mineração: o crime full-stack
A Operação Contenção não parou na fazenda. O mesmo desdobramento atingiu o núcleo financeiro do golpe da "falsa central telefônica", estruturado em parceria com investigadores do Piauí. O esquema é conhecido e devastador: o grupo liga para o correntista se passando por funcionário da segurança do banco, alega que a conta foi comprometida e pressiona a vítima a discar para uma central telefônica controlada pela quadrilha, onde um operador a convence a entregar códigos de acesso ou a transferir o saldo inteiro para contas de laranjas.
Some as duas pontas e o desenho fica claro: a facção opera uma cadeia financeira completa. De um lado, o golpe da falsa central drena contas bancárias — a mesma família de fraude que mapeamos no trojan GoPix e no cluster de vazamentos e golpes via Pix. Do outro, a fazenda de mineração gera ativo próprio. Roubo, produção e lavagem sob o mesmo guarda-chuva — um modelo de negócio, não um amadorismo.
O Brasil no mapa do crime cripto
O caso do Lins é a versão de rua de uma tendência que a Chainalysis — parceira da ON3X em blockchain analytics — documentou no Crypto Crime Report 2026: o cenário ilícito on-chain deixou de ser feito de hackers solitários e passou a operar com infraestrutura de larga escala, ajudando redes criminosas transnacionais a adquirir bens e lavar valores. A apreensão no Rio mostra essa infraestrutura encarnada em hardware físico, num terreno de favela.
O pano de fundo dá a dimensão. A Polícia Federal apreendeu cerca de US$ 14 milhões em cripto em 2025, e o Brasil é o maior mercado de criptoativos da América Latina — responde por quase um terço do volume da região e ocupa a 5ª posição no índice global de adoção. Onde há adoção em massa, o crime organizado segue o dinheiro. O país que já vinha lidando com vazamentos massivos de dados e com um ecossistema de cyber-insegurança cada vez mais movimentado agora vê as facções territoriais entrarem na cadeia de produção de ativos digitais.
Vale o contraste com o outro extremo do espectro. Lá fora, o crime cripto de ponta é estatal e sofisticado, como o da Coreia do Norte. Aqui, ele é territorial e analógico na entrada — um gato de luz — mas digital e global na saída. E não é exclusividade brasileira: a onda de operações policiais contra cripto-crime na América Latina mostra a região inteira correndo atrás do mesmo fenômeno.
O ponto cego regulatório
Eis a ironia que conecta este caso ao momento regulatório do país. Em 2026, o Brasil concentrou sua artilharia normativa na camada de pagamento e emissão: a Resolução 561 tirou o cripto da liquidação cambial, a 521 colocou carteiras no radar, o PL 4.308 mira a emissão de stablecoins. Tudo voltado para como o dinheiro digital circula no sistema formal.
Mas a fazenda do Lins não toca em nenhum desses trilhos. Ela não emite stablecoin, não liquida câmbio, não passa por exchange regulada na origem. Ela rouba energia e gera Bitcoin. É um vetor que vive no ângulo morto da regulação — o mesmo ângulo morto patrimonial que apontamos quando a Tether passou a comprar ativos reais no país. A fronteira que o Estado fortifica é a do fluxo formal; o crime, como sempre, inova na borda que ninguém está vigiando. Combater isso é trabalho de polícia e de concessionária de energia, não de banco central.
A perspectiva ON3X
Três leituras para levar deste caso:
- O crime organizado brasileiro virou produtor, não só usuário. Minerar com energia furtada é uma etapa nova: a facção transforma controle territorial em ativo digital limpo na origem, pulando a parte mais arriscada da lavagem. É a industrialização do crime cripto na escala da favela.
- Roubo, produção e lavagem agora moram na mesma operação. A Operação Contenção atingiu, no mesmo fôlego, uma fazenda de mineração e um núcleo de golpe bancário. Não é coincidência — é uma cadeia financeira vertical, com a cripto servindo de camada de saída para o dinheiro que entra pela fraude e pelo gato de luz.
- A regulação mira o fluxo; o crime explora a infraestrutura. Enquanto 561, 521 e PL 4.308 cercam stablecoins e pagamentos, a mineração via energia roubada passa por baixo de tudo. Soberania monetária não se resolve só no balcão do câmbio — e segurança cripto, no Brasil, passa cada vez mais pelo medidor de luz.
Perguntas frequentes
O que a polícia encontrou no Complexo do Lins?
Na Operação Contenção, em 22 de maio de 2026, a Polícia Civil do Rio encontrou uma fazenda clandestina de mineração de criptomoedas com cerca de 30 computadores escondidos atrás de um mercado de fachada, alimentados por furto de energia (~45 kW, ~US$ 6.400/mês), ligada ao Comando Vermelho. Dez pessoas foram presas.
Como funciona "minerar com energia roubada"?
A mineração de criptomoedas consome muita eletricidade — é o maior custo da operação. Ao puxar energia da rede pública via ligações irregulares (gato de luz), a facção zera esse custo e fica com margem praticamente total sobre o Bitcoin gerado, às custas da concessionária e dos consumidores.
Por que isso é diferente de lavagem de dinheiro tradicional?
Na lavagem clássica, parte-se de um valor sujo e tenta-se ocultar a origem. Na mineração, a facção parte de um insumo roubado (energia) e produz Bitcoin recém-emitido, que nasce sem vínculo direto com um crime de origem na blockchain — um ativo já "limpo" na carteira, sem precisar de misturadores.
O que é o golpe da "falsa central telefônica"?
É uma fraude em que criminosos ligam para a vítima fingindo ser da segurança do banco, alegam que a conta foi comprometida e a induzem a discar para uma central controlada pela quadrilha, onde a convencem a fornecer códigos ou transferir o saldo para contas de laranjas. A mesma operação no Rio atingiu um núcleo desse golpe.
